5 anos de Talibã: Milhões de meninas fora da escola - Resenha crítica - 12min Originals
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5 anos de Talibã: Milhões de meninas fora da escola - resenha crítica

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Editora: 12min

Resenha crítica

Em 15 de agosto de 2021, o Talibã retomou o controle do Afeganistão enquanto as tropas dos Estados Unidos e de outros países da OTAN concluíam a retirada, depois de duas décadas de guerra. A saída produziu as cenas de caos dentro e ao redor do aeroporto de Cabul, com milhares de pessoas tentando deixar o país. Cinco anos depois, o aniversário chega com dois balanços que quase não conversam: o de quem descreve um país mais estável e o de quem descreve uma exclusão que a ONU diz não ter paralelo no mundo.

A promessa de 2021 e as portas que fecharam

Antes de assumir, o Talibã declarou que permitiria às mulheres acesso à educação, ao trabalho e à participação pública — de acordo, dizia, com sua interpretação dos princípios islâmicos. Logo após tomar o poder, impôs uma proibição por tempo indeterminado à educação de meninas além da sexta série. Poucos meses depois, vetou o ensino superior para mulheres "até novo aviso".

Na prática, as escolas secundárias fecharam para meninas em março de 2022 e as universidades, em dezembro do mesmo ano. As duas medidas foram apresentadas como temporárias e seguem em vigor. As restrições foram além da sala de aula: mulheres foram proibidas de entrar em academias, parques e banhos públicos, de praticar esportes, de frequentar salões de beleza e de viajar para lugares distantes sem um "mahram", o acompanhante homem da família. O porta-voz Zabihullah Mujahid afirma repetidamente que a administração trabalha para criar as condições em que meninas e mulheres possam voltar às salas e aos campi, em linha com a lei islâmica.

Uma geração inteira fora da sala de aula

A UNESCO, agência da ONU para educação e cultura, calcula que 2,4 milhões de meninas estejam impedidas de cursar o ensino secundário no país — 200 mil a mais do que na contagem do ano anterior. Se a política não mudar, a agência projeta que o número se aproxime de quatro milhões até 2030.

"Cinco anos não são uma interrupção temporária na educação de uma criança. É praticamente um ciclo secundário inteiro", disse Hoda Jaberian, coordenadora de programa da UNESCO para educação em emergências. Segundo ela, o Afeganistão é hoje o único país do mundo em que meninas e mulheres estão formalmente proibidas de frequentar o ensino secundário e superior.

O tamanho do retrocesso aparece na comparação com o próprio país. Em 2001, o acesso de meninas à escola era muito limitado; em 2021, quase um milhão delas estava matriculada no ensino secundário. "O Afeganistão tinha feito um progresso realmente grande na ampliação do acesso das meninas à educação. Infelizmente, boa parte desse avanço foi completamente revertida", afirmou Jaberian.

O efeito atinge também os meninos. Como as mulheres foram proibidas de dar aula para eles, a ONU diz que o sistema perdeu profissionais qualificadas e que turmas passaram a ficar com professores homens sem formação — ou sem professor. A UNESCO projeta um déficit de mais de 11 mil professoras qualificadas até 2030.

E o problema não se resume à proibição. Mais de dois milhões de crianças em idade de ensino primário estão fora da escola por outros motivos, mais de 90% das crianças de 10 anos não conseguem ler um texto simples e a taxa de alfabetização nacional está em 37%. Quase metade das escolas não tem água, saneamento ou aquecimento, e cerca de mil delas fecharam desde 2021 por causa de terremotos, enchentes e outros desastres.

O que o governo talibã apresenta como resultado

Molvi Hayatullah Mahajar Farahi, vice-ministro de radiodifusão no Ministério da Informação e Cultura, listou à Associated Press o que considera as entregas do período: segurança, estabilização da moeda, melhora da infraestrutura e criação de parques industriais que geraram empregos. "Naturalmente, existem desafios e dificuldades, mas podemos destacar várias conquistas", disse.

Perguntado sobre a educação de meninas e mulheres, Farahi não tratou do tema; afirmou que "o nível de investimento feito nas universidades supera qualquer coisa vista no passado". Ele também rejeitou um relatório da ONU que documenta redes terroristas no país, chamando-o de "mera propaganda inimiga", e disse que o governo mantém relações com cerca de 40 países. Até agora, a Rússia é o único que reconheceu formalmente a administração talibã. "O Emirado Islâmico do Afeganistão cumpriu todos os requisitos necessários para o reconhecimento oficial", afirmou. Sobre a educação, o governo tem respondido a apelos internacionais — inclusive de governos de maioria muçulmana — dizendo que se trata de assunto interno.

A ONU reconhece parte do quadro. A missão de assistência da organização no país, a UNAMA, afirmou que "a redução do conflito trouxe benefícios concretos para muitos afegãos e criou oportunidades para focar em recuperação, desenvolvimento e cooperação econômica regional", mas acrescentou que as restrições a mulheres e meninas atrapalham essa recuperação e a reaproximação com o resto do mundo. A ONU Mulheres foi mais dura: disse que o país "desmantelou sistematicamente os direitos de metade de sua população" e que a exclusão se intensificou no último ano.

Em Cabul, segurança de um lado, conta do outro

Nas ruas da capital, vendedores ofereciam as bandeiras brancas com inscrições pretas do Talibã e pintores escreviam slogans nos muros para as comemorações. Entre moradores ouvidos pela AP, a segurança aparece como ganho e o emprego como cobrança. "Graças a Deus, os últimos cinco anos passaram em segurança", disse Mohammad Qasim, de 30 anos, que pediu ao governo criação de vagas de trabalho para os jovens. Dost Mohammad Khan, de 38, disse que o país precisa de médicos e engenheiros formados e pediu que as autoridades permitam que mulheres estudem sob o código de vestimenta islâmico. A empresária Fazila Soroush, de 39, cobrou que os responsáveis pelo "até novo aviso" tomem enfim "uma decisão clara e prática".

Enquanto isso, a ajuda encolhe. O Programa Mundial de Alimentos afirma que a desnutrição infantil atingiu níveis críticos em um terço das províncias e deve piorar com os cortes de distribuição provocados pela falta de financiamento. A representante especial da ONU Mulheres, Sarah Ferguson, disse de Cabul que a agência recebe apenas um quarto do que precisa e que, entre 74 organizações de mulheres consultadas em abril, mais da metade estava perto de suspender ou encerrar atividades. Some-se a pressão demográfica: três milhões de pessoas voltaram ao país em 2025, de forma voluntária ou forçada, e mais de sete milhões desde 2023.

O que fazer com essa informação

O primeiro cuidado é não tratar "estabilidade" e "direitos" como o mesmo indicador. A ONU e moradores de Cabul convergem sobre a queda do conflito armado; é exatamente sobre as restrições a mulheres e meninas que governo e organismos internacionais divergem. Quem acompanhar o assunto ganha mais lendo os dois eixos separados do que procurando um veredito único.

Depois, há marcadores verificáveis nos próximos anos. A projeção da UNESCO de quatro milhões de meninas fora do ensino secundário até 2030 é uma conta condicionada à manutenção da política: se a proibição cair, o número não se cumpre. O mesmo vale para o déficit de 11 mil professoras — ele mede o efeito de uma regra específica, a de que mulheres não lecionem para meninos, e é o tipo de dado que mostra se algum sinal de flexibilização é real ou retórico.

Vale observar também o vocabulário oficial. "Até novo aviso" é a fórmula que sustenta o veto ao ensino superior desde 2022, e é justamente contra ela que uma empresária afegã pediu publicamente "uma decisão clara e prática". Qualquer mudança de redação nos comunicados do governo talibã é o que antecede mudança de política.

No plano externo, dois números dizem para onde a coisa anda: quantos países passam do contato ao reconhecimento formal — hoje só a Rússia — e quanto dinheiro chega às agências que operam no país, que hoje trabalham com uma fração do orçamento que dizem precisar. É essa segunda conta, e não o discurso de aniversário, que decide se a merenda, a clínica e a escola de aldeia continuam abertas no ano que vem.

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